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DICAS DE LIVROS

A invenção de Goiânia - O outro lado da mudança

15/10/2013 10:28:50

 Em tudo há sempre dois lados. O par binário parece orientar a percepção da mudança social: o antes e o depois. O conectivo “e” esconde um tempo de espera, marcado por expectativas e apostas. Para parte significativa do Brasil Central, a construção de Goiânia foi um acontecimento, um elo entre dois tempos, uma revolução. Finalmente, as narrativas sobre a construção da cidade ordenaram o modo de ver e sentir a passagem do tempo em Goiás. Eis o problema, o buraco negro para usar o termo cunhado por Paulo Bertran. O passado foi recomposto de modo abrupto. Como um astro perdido no tempo, a velha capital passou a gravitar sobre si mesma, movimento contido pela sombra da Serra Dourada. A experiência social partilhada pelos habitantes da antiga Vila Boa perdeu visibilidade.


A tese de Jales Guedes Coelho Mendonça [“A Invenção de Goiânia — O Outro Lado da Mudança”, Editora Vieira, 681 páginas] tem o claro objetivo de palmilhar o tempo da mudança, atento ao que nele se apresenta como traço de continuidade, o outro lado. A construção da nova capital, como projeto político, se espraia em duas direções: desde o fim do século XVIII, a ideia da mudança se assemelha a uma iluminação utópica. Na década de 1930, a utopia se transforma em projeto político tenazmente defendido por Pedro Ludovico. Mais uma vez os dois tempos se afastam por meio de um recorte temporal que institui a revolução de 1930 como marco de passagem para o Brasil moderno.

A operação histórica carrega a marca do poder: lugares, práticas e procedimentos. A narrativa que elide o passado, ou parte dele, nada tem de inocente. A imposição da evidência — a nova capital — é parte de uma estratégia que ordena a visibilidade e a legibilidade da experiência social em Goiás. O passado é percebido como paisagem, aquilo que se vê. A velha capital, bem como a temporalidade dos homens da Primeira República, cobriu-se com o manto da invisibilidade. Não, os homens não se tornaram invisíveis. O que se via e se registrava acerca do passado ganhou um tom sombrio. O passado, tão próximo, tornou-se distante. Na linguagem dos revolucionários, os homens ligados ao passado foram designados como carcomidos.

Vislumbrar o outro lado da mudança requer operação diversa: repor a visibilidade dos homens e de suas ações no tempo. O diálogo com as fontes e com a documentação é sempre mediado pelo presente. Refletir sobre o outro lado requer o conhecimento da alteridade. Do contrário, a narrativa histórica corre o risco de apresentar-se enrijecida pelas relações de poder, confluindo para o terreno pantanoso do mito, da ideologia.

A tese de Jales Guedes Coelho Mendonça lança outro olhar sobre a construção da capital, quer vislumbrar perspectiva diversa acerca do passado. O tempo da nova capital é percebido no interior dos conflitos e contradições próprias à experiência republicana. A trajetória política de Pedro Ludovico é marcada pela presença do sogro, Antônio Martins Borges (Totonho Borges), que por duas vezes ocupou o cargo de senador estadual e foi prefeito de Rio Verde. Com o crescimento da economia da região, o senador Martins Borges queria mais espaço político, mas não pretendia conceder aos Caiado apoio incondicional. Em meio ao clima de disputa, evidencia-se a presença de Pedro Ludovico, futuro interventor, nos arranjos partidários marcados pelo domínio do poder pessoal. Nessa direção, quer Jales Coelho Mendonça encontrar, por meio da análise da trajetória política de Pedro Ludovico, os elementos de continuidade entre o antes e o depois de Goiânia.


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